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Cden debate soberania digital e destaca papel estratégico da engenharia


Créditos: Arquivo CREA-RS

A terceira reunião ordinária do Colégio de Entidades Nacionais do Sistema Confea/Crea e Mútua (Cden), realizada entre os dias 20 e 22 de julho, reuniu representantes das entidades nacionais do Sistema para discutir temas relacionados ao fortalecimento institucional, ao aprimoramento do exercício profissional e ao desenvolvimento da engenharia brasileira. A programação contemplou a apreciação de propostas técnicas, debates sobre fiscalização, educação, infraestrutura, legislação profissional e inovação, além da definição de encaminhamentos estratégicos para o Sistema Confea/Crea e Mútua.

Encerrando a programação, nesta quarta-feira (22), o professor e pesquisador Sergio Amadeu da Silveira ministrou a palestra "Soberania Digital Brasileira: Engenharia, Infraestrutura Tecnológica e Autonomia Nacional", na qual abordou os desafios da dependência tecnológica do país e defendeu a construção de uma estratégia nacional baseada no fortalecimento da engenharia, da infraestrutura digital e da capacidade brasileira de desenvolver tecnologias próprias.

Segundo o palestrante, a adoção de soluções em nuvem por instituições públicas e de ensino tem levado ao armazenamento de dados estratégicos fora do território nacional. Como exemplo, citou o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), apontado pela Microsoft como um case de sucesso em computação em nuvem, e alertou que informações sensíveis sobre o desempenho escolar de estudantes brasileiros acabam sendo processadas e armazenadas por empresas sediadas no exterior.

Durante a exposição, Sergio Amadeu também chamou atenção para a contratação de plataformas como o Google Workspace for Education por universidades brasileiras, o que, em sua avaliação, amplia o acesso das grandes empresas de tecnologia a dados acadêmicos, pesquisas e informações produzidas no país. Para ele, esse modelo reforça a dependência tecnológica nacional, na medida em que o Brasil se limita a fornecer dados, consumir produtos e serviços desenvolvidos a partir deles e criar aplicações baseadas em modelos de inteligência artificial pré-treinados pelas big techs. O pesquisador ressaltou ainda que a IA demanda enorme capacidade computacional e grandes volumes de dados, fatores que concentram poder econômico e tecnológico nas empresas que controlam essa infraestrutura.

Ao contextualizar o cenário internacional, Sergio Amadeu destacou que os Estados Unidos avançam na consolidação de sua liderança em inteligência artificial com o projeto Stargate, iniciativa que prevê investimentos de até US$ 500 bilhões em infraestrutura para IA, liderada por empresas como Oracle, OpenAI e SoftBank. Anunciado em janeiro de 2025, o projeto busca ampliar a capacidade computacional do país e acelerar o desenvolvimento de tecnologias de ponta, evidenciando a crescente disputa global por soberania tecnológica e infraestrutura digital.
 

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Professor e pesquisador Sergio Amadeu da Silveira 


O pesquisador também abordou os impactos da concentração de recursos computacionais nas grandes empresas de tecnologia sobre a produção científica. Ao citar um estudo publicado pela MIT Technology Review, destacou que a pesquisa em inteligência artificial passa por um processo de "privatização", no qual o elevado custo da infraestrutura computacional dificulta que universidades e centros públicos de pesquisa acompanhem o ritmo de desenvolvimento das big techs. Segundo ele, esse cenário reforça a dependência tecnológica e limita a autonomia de países como o Brasil na produção de conhecimento e no desenvolvimento de soluções próprias.

Ao defender o fortalecimento da soberania digital brasileira, Sergio Amadeu afirmou que o país precisa adotar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento de infraestrutura tecnológica própria, reduzindo a dependência de plataformas e serviços estrangeiros. "O Brasil está entre os poucos países que não diferenciam, de forma estratégica, empresas nacionais e internacionais no setor de tecnologia", alertou.

O pesquisador destacou que o país possui capacidade técnica e engenharia para projetar e construir data centers e desenvolver soluções digitais próprias, mas ressaltou que esse potencial ainda não é acompanhado por políticas públicas de incentivo. Para ele, decisões estratégicas são fundamentais para consolidar um ecossistema nacional de inovação, garantindo maior autonomia no armazenamento, processamento e uso dos dados produzidos pela população brasileira.

Sergio Amadeu da Silveira é professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), pesquisador do CNPq, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e uma das principais referências brasileiras em estudos sobre tecnologia, internet, inteligência artificial e soberania digital. Ex-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) e ex-integrante do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), é autor de diversas obras sobre privacidade, inclusão digital e software livre.

Fernanda Pimentel
Equipe de Comuncação do Confea 

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